Catolicismo Leituras Espirituais

Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea — O Anjo voa para Deus-Amor

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Por J. Ferreira Fontes
Diretor do “Mensageiro do Coração de Jesus”.
Livro de 1936: Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea.

São Tomás de Aquino por Diego Velázquez (1599-1660). Museu do Palácio Arcebispal de Orihuela, Alicante, Espanha. Obra concluída em 1632.
Santo Tomás de Aquino recebe dos anjos um cinto místico de pureza depois de sua prova de castidade. Por Diego Velázquez (1599-1660). Museu do Palácio Arcebispal de Orihuela, Alicante, Espanha. Obra concluída em 1632.

O maravilhoso par de asas da especulação e da contemplação. - Generosamente desprendido de toda a fascinação da vaidade terrena, do amor repreensível da carne e sangue, das cobiças e ambições mundanas, pela entrada na Religião Dominicana, angelicamente liberto para sempre do cativeiro dos sentidos depravados, em prêmio do heroísmo com que lutara pela pureza, despojado enfim do próprio eu pelo ascetismo físico e intelectual que o estabelecera na mais extraordinária humildade, o Anjo estava divinamente disposto para se entregar de todo ao ímpeto do espírito, para se remontar sobre o maravilhoso par de asas da especulação e da contemplação àquele Deus de infinita Verdade e Amor que desde os mais tenros anos o vinha fascinando.

 

Aquela alma tão pura, tão humilde, sem véu algum de sensualidade ou orgulho, oferecia perpètuamente aos influxos do céu a sua angélica transparência. Que admira que o Sol de justiça ali se compraza em reverberar os deslumbrantes clarões da Verdade e atear os místicos incêndios do Amor?!

Oh! o aspecto mais belo e característico do perfil de Santo Tomás é certamente este: a sua vida interior é uma série ininterrompida de ascensões para Deus pela inteligência e pelo coração. De facto, em Santo Tomás acender na inteligência mais um clarão de verdade é avivar no coração mais uma faísca de amor; assim como atear directamente incêndios no coração é iluminar com novas luzes a inteligência.

Quere dizer, a vida de Santo Tomás de Aquino era toda especulação e contemplação, e de tal maneira se iam entrelaçando e fundindo uma na outra durante o dia, que a oração e contemplação preparavam a especulação, e inversamente. Fr. Reginaldo atestava que «cada vez que Fr. Tomás queria estudar, sustentar uma discussão, ensinar, escrever ou ditar, recorria primeiro à oração em secreto, e que freqüentemente derramava lágrimas, antes de se consagrar ao estudo das verdades divinas. E, se alguma dúvida se vinha apresentar ao seu espírito, interrompia o trabalho, para recorrer de novo à oração»[1].

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21 de dez. S. Tomé, Ap. dpl. II. cl. — R

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"A incredulidade de São Tomé" por Caravaggio. Óleo sobre tela, concluída entre 1601-1602. Sanssouci, Potsdam, capital do alemão estado federal de Brandemburgo.
“A incredulidade de São Tomé” por Caravaggio. Óleo sobre tela, concluída entre 1601-1602. Sanssouci, Potsdam, capital do alemão estado federal de Brandemburgo.

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NOVENA PARA A FESTA DO NATAL. Sexto dia. 21 de dezembro — Dor de Jesus Menino pela previsão da ingratidão dos homens

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In propria venit, et sui eum non receperunt. — “Veio para o que era seu, e os seus não receberam” (Jo 1, 11). 
Sumário. A ingratidão desagrada aos homens. Qual deve, pois, ter sido a tristeza de Jesus Menino, ao prever que os seus benefícios seriam pagos pelo mundo com injúrias, traições e tormentos! Mas ai de nós, que porventura também até hoje temos respondido aos benefícios do Senhor de um modo desumano. Ou pelo menos temo-lo amado tão pouco, como se nenhum bem nos tivesse feito, nem sofrido coisa alguma por nós. Queremos ser tão ingratos sempre?

 

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Madonna da Humildade. Fra Angelico (circa 1395–1455), cerca 1430. National Gallery of Art.

I- Pelos dias do santo Natal São Francisco de Assis andava pelos caminhos e bosques chorando e suspirando com gemidos inconsoláveis. Perguntado pela razão de tanto sofrer respondeu: Como não chorar, vendo que o amor não é amado? Vejo um Deus como que perdido de amor ao homem, e o homem tão ingrato para com esse Deus! Ora, se a ingratidão dos homens afligia tanto o coração de São Francisco, quanto mais não terá afligido o Co­ração de Jesus Cristo?

Apenas concebido no seio de Maria, Jesus viu a in­gratidão despiedada que receberia da parte dos homens. Baixara do céu para acender o fogo do divino amor; sómente este desejo fizera-o descer sobre a terra para ali sofrer um abismo de dores e ignomínias : Ignem veni miittere in terram (Lc 12,49) “Eu vim trazer o fogo à terra”. E em seguida viu um abismo de pecados que os homens haviam de cometer, depois de presenciarem tantos rasgos de seu amor. Foi isso, no pensar de São Bernardino de Sena, o que o fez sofrer dores infinitas: Et ideo infinite dolebat. —  Mesmo para nós é insuportável vermos uma pessoa tratada por outra com ingratidão, e muitas vezes isto aflige muito mais a alma, do que qualquer dor aflige o corpo. Qual não deve, pois, ter sido a dor que nossa ingratidâo causou a Jesus, nosso Deus, quando viu que os seus heneficios e o seu amor lhe seriam retribuídos por nós com desgostos e injúrias? Et posuerunt adversum me mala pro bonis, et odium pro dilectione (Sl 108,5)  — “Retribuíram-me o bem com o mal, e o meu amor com ódio”.

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IV. DOMINGO DO ADVENTO

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VisitacaoDomenicoGhirlandaio
La Visitazione. Domenico Ghirlandaio (1449-1494). Cerca de 1490. Deutsch, Tempera auf Holz. Santa Maria Novella. The Yorck Project.

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Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea — Ascetismo «intelectual» de Santo Tomás e profundíssima humildade

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Por J. Ferreira Fontes
Diretor do “Mensageiro do Coração de Jesus”.
Livro de 1936: Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea.
TomasAquino
Santo Tomás de Aquino. Contrariamente aos intelectuais de nossos tempos que buscam o auto-endeusamento, para este grande santo teólogo, guardar a cela e guardar o silêncio são as duas condições primordiais para quem quer que se dispõe a subir pelo estudo e contemplação à Ciência e ao Amor.

Ascetismo «intelectual» de Santo Tomás.- Não espereis encontrar no Doutor Angélico as disciplinas de sangue, as macerações violentas, todas essas austeridades crucificantes dum ascetismo predominantemente corporal, que nos espantam, por exemplo, em S. Domingos e nos primeiros Frades Pregadores. A vida ascética de Santo Tomás é intensíssima; mas, toda ordem para o fim, toda condicionada pela sua missão providencial. «Em Santo Tomás, observa o R. P. Petitot O. P.[1], em Santo Tomás, que foi e continua sendo o protótipo acabado do monge filósofo e teólogo, o ascetismo tornou-se menos violento, menos momentâneo, menos exterior, menos sangrento e, neste sentido, menos à flor da pele; pelo contrário, foi mais interior, mais profundo; atingiu não somente o coração, mas a própria cabeça, foi, por assim dizer, mais intelectual».

Todo o ascetismo cristão é um conjunto de exercícios pelos quais o fiel modera, restringe, cerceia, mortifica em si mesmo as funções animais ou inferiores, a vida sensual ou sensível, exterior, para desenvolver as faculdades superiores, para aumentar a vida interior, espiritual, contemplativa.

Mas o ascetismo não é um fim, é um meio para atingir a perfeição da vida espiritual, meio que na escolha das infinitas práticas ascéticas possíveis terá de se acomodar às condições específicas de cada vocação. Na arena da perfeição cada lutador, para vir a colher os loiros da vitória, terá necessariamente de brandir armas proporcionadas ao fim especial que a Providência lhe propõe.

Ora, pelas mais eminentes qualidades do seu espírito, pelas mais ardentes aspirações do seu coração, pela direcção que Deus fora imprimindo à sua vida, pelas indicações dos seus mestres e prescrições dos superiores, Santo Tomás não podia ter a mínima dúvida de que a sua missão providencial era realizar em si, em toda a integridade, o ideal da vida dominicana, como a concebiam no século XIII: isto é, entregar-se ao estudo, ao ensino superior, à pregação erudita, numa palavra, ser Doutor e Pregador da verdade; buscar, encontrar e comunicar a Deus, compreender e fazer compreender o que é Deus com a inteligência, encontrar, abraçar e fazer encontrar e abraçar a Deus com o coração.

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PARA A FESTA DO NATAL. Quinto dia. 20 de dezembro — Jesus Menino se oferece à justiça divina como nossa vítima

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Natividade

Oblatus est, quia ipse voluit — “Ele foi oferecido, porque ele mesmo quis” (Is 53,7) 
Sumário. Todos os sacrifícios oferecidos a Deus no decorrer de quarenta séculos, não foram bastante eficazes para remir o homem. Por isso, o Verbo divino, apenas feito homem, ofereceu-se a si mesmo para vítima da divina justiça, e por nosso amor aceitou a morte com todos os padecimentos que a deviam acompanhar. Fê-lo o divino Menino logo na primeira entrada no mundo. E nós, já chegados ao uso da razão, que temos feito por seu amor? Talvez que desde então tenhamos começado a ofendê-lo. 

 

I- O Verbo divino, desde o primeiro instante em que se viu feito homem e criança no seio de Maria, se ofereceu por si mesmo às penas e à morte para resgate do mundo. Sabia que todos os sacrifícios dos cordeiros e dos touros oferecidos a Deus na Antigüidade não tinham podido satisfazer pelas culpas dos homens, mas que era necessário que uma pessoa divina satisfizesse por eles o preço de sua redenção. Pelo que disse, como afirma o Apóstolo: “Não quiseste hóstia nem oblação, mas me formaste um corpo. Então eu disse; Eis-me aqui presente” (Heb. 10,5). Meu Pai, disse Jesus Cristo, todas as vítimas que vos foram oferecidas até agora não bastam nem bastarão para satisfazer vossa justiça; destes-me um corpo passível para que com a efusão de meu sangue vos aplaque e salve os homens: eis-me aqui presente, “ecce venio“, tudo aceito e tudo submeto a vossa vontade.
A parte inferior de sua vontade experimentava, naturalmente, repugnância e recusava-se a viver e a morrer entre tantas dores e opróbrios, mas venceu a parte racional, que estava completamente subordinada à vontade do Pai, e aceitou tudo, começando Jesus a padecer desde aquele instante, todas as angústias e dores que sofreria nos anos de sua vida, assim agiu nosso divino Redentor desde os primeiros instantes de sua entrada no mundo.
E como nos portamos nós com Jesus Cristo, desde que, chegados ao uso da razão, começamos a conhecer, com as luzes da fé, os sagrados mistérios da redenção? Que pensamentos, que desígnios, que bens temos amado? Prazeres, passatempos, soberbas, vinganças, sensualidade, eis os bens que aprisionaram os afetos de nosso coração. Mas, se temos fé, mudemos de vida e de amores; amemos a um Deus que tanto padeceu por nós. Lembremo-nos das penas que o Coração de Jesus padeceu por nós desde criança, e assim não poderemos amar senão esse Coração, que tanto nos amou.

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SÁBADO DAS TÊMPORAS DO ADVENTO

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Profeta Isaías. Afresco de Michelangelo Buonarroti (1475-1564). Concluída em 1509. Capela Sistina. Web Gallery of Art.
Profeta Isaías. Afresco de Michelangelo Buonarroti (1475-1564). Concluída em 1509. Capela Sistina. Web Gallery of Art.

SabadoTemporas continue lendo »

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Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea

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Santo Tomás de Aquino, o Anjo dos corações ansiosos de paz no Amor

Por J. Ferreira Fontes
Diretor do “Mensageiro do Coração de Jesus”. 
Livro de 1936: Santo Tomás de Aquino e a crise contemporânea.

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Fra Bartolomeo (1472–1517) “Thomas Aquinas”, pintura. Antes de 1517. bridgemanartondemand.com

O Doutor Angélico. - Não foi somente pela inteligência e coração de Anjo que Santo Tomás de Aquino conquistou o título de Doutor Angélico. Basta percorrer o que êle deixou escrito acerca das celestes Jerarquias, para assentar que só um Anjo poderia assim falar dos Anjos, seus irmãos.

Entre os sublimes segredos que do mundo angélico nos revela, ao tratar, na 1.a Parte da Suma Teológica, da Acção dos Anjos sobre os homens, propõe, no artigo 2.° da questão 111, este interessante problema: -Podem os Anjos modificar a vontade do homem ? Utrum Angeli possint immutare voluntatem hominis.

A solução é-nos dada com a subtil profundeza de sempre.

De dois modos, raciocina o Doutor Angélico, pode a vontade ser movida ou modificada.

Ab interiori, isto é, da parte da mesma potência, por ninguém pode ser movida a vontade senão por Deus. Só Deus, único autor da natureza racional, que deu à sua criatura a faculdade de querer, é que pode modificar intrinsecamente essa potência no seu movimento para o bem.

Ab exteriori, isto é, da parte do objecto, a vontade é movida pelo bem e por quem lhe mostra o bem. Movimento necessário, é certo que só o bem universal, Deus, o pode determinar na vontade. O anjo, nem como objecto, nem como revelador do objecto, pode necessitar o movimento da vontade; mas tem, sem dúvida, o poder de a inclinar, propondo-se-lhe a si mesmo como objecto amável ou manifestando-lhe alguns bens criados, reflexos da bondade de Deus; e por este meio pode incliná-la ao amor de Deus ou da criatura, por modo de quem persuade (ad modum suadentis)[1].

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Summorum Pontificum no Brasil: Santa Missa de Natal em Interlagos, SP

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Fonte: Fratres in Unum.

SummorumPontificumInterlagosSP

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NOVENA PARA A FESTA DO NATAL. Quarto dia. 19 de dezembro — A Paixão de Jesus Cristo durou todo o tempo da sua vida

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Infante Jesus como Cristo Redentor. Por Simone Cantarini (nascido em Pesaro, 1612 - falecido em Verona, 1648).
Infante Jesus como Cristo Redentor. Por Simone Cantarini (nascido em Pesaro, 1612 – falecido em Verona, 1648).
Dolor meus in conspectu meo semper — “A minha dor está sempre diante de mim” (Sl 37, 18).
Sumário. Desde o instante em que foi criada a alma de Jesus Cristo e unida com seu pequenino corpo, viu diante de si todos os padecimentos que teria de sofrer para a redenção dos homens. Por isso Jesus começou – desde o primeiro instante da sua vida a sofrer por nosso amor a tristeza… mortal que depois padeceu no horto de Getsêmani. E como temos nós correspondido a tão grande amor? Talvez com frieza e ingratidão.

 

I- Consideremos como naquele primeiro instante em que foi criada e unida a alma de Jesus Cristo a seu corpo, no seio de Maria, o Padre Eterno mostrou a seu Filho sua vontade de que morresse pela redenção do mundo; e naquele mesmo instante lhe mostrou todas as penas que devia sofrer até a morte para redimir os homens. Mostrou-lhe então todos os trabalho, desprezos e pobreza que devia padecer em sua vida, tanto em Belém como no Egito e em Nazaré, e depois todas as dores e ignomínias da paixão: açoites, espinhos, cravos e cruz; todos os tédios, tristezas, agonias e abandonos no meio dos quais havia de terminar sua vida no Calvário.

Abrão, conduzindo seu filho à morte, não quis afligi-lo dizendo-lhe antecipadamente que morreria, e isso no pouco tempo que era necessário para chegar ao monte. Mas o Eterno Pai quis que seu Filho encarnado, destinado como vítima de nossos pecados à sua justiça, padecesse imediatamente, pelo conhecimento delas, todas as penas a que depois teria que sujeitar-se durante sua vida e em sua morte. Daí, a tristeza padecida por Jesus no Horto, capaz de tirar-lhe a vida, como ele declarou: “Minha alma está triste até a morte” (Mt. 26,38), padeceu-a também constantemente desde o primeiro momento em que esteve no seio de sua Mãe. Assim, desde então sentiu vivamente e sofreu o peso reunido de todas as dores e vitupérios que O esperavam.

A vida inteira e todos os anos de nosso Redentor foram cheios de penas e lágrimas: “Na dor se consome minha vida, e em soluços meus anos” (Ps. 30,11). Seu divino Coração não teve um momento livre de sofrimentos; quer vigiasse ou dormisse, quer trabalhasse ou descansasse, rezasse ou falasse, sempre tinha diante dos olhos essa amarga representação, que atormentava mais sua santíssima Alma do que atormentaram aos santos mártires todas as suas penas. Eles padeceram, mas, ajudados pela graça divina, padeceram com alegria e fervor. Jesus Cristo sofreu, mas sofreu sempre com o coração cheio de tédio e tristeza, e tudo aceitou por nosso amor.

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